MÚSICA MAROTA E OUTRAS COISAS QUE FAZEM A CABEÇA

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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

entrevista com rogério skylab


vô colocar só um trecho, pra dar o gostinho:

6- Gostaria de agradecer a participação, Rogério! Sinta-se vontade para acrescentar maiores informações e outras observações e sobre o assunto, caso necessário.

SKYLAB: Minhas considerações finais? Vivemos o mundo da virtualidade, second life na veia. A Internet que o diga. Acho engraçado quando ouço alguns discursos contra o mundo virtual. Nunca fui tão feliz. Posso ser mulher, bicha, maconheiro. Mantenho uma relação virtual com uma menina de 18 anos. Como eu também sou uma menina e tenho 19 anos, nos tornamos namoradas. Não há ninguém na vida real que me complete tanto quanto ela. E tenho certeza que ela pensa o mesmo de mim.
Nunca se poderia imaginar que chegaríamos a esse nível de metamorfose. A Metamorfose de Ovídio é brincadeirinha perto das que estamos vivendo hoje no mundo virtual. E acho que Air Guitar tem tudo a ver com isso.

o texto completo tá no blog do guru skylab.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Eu falo por meio das minhas canções

por Lou Reed


Domingo, 10 de setembro de 2000, 9h 45min

Querido diário: Hoje eu estou em Belfast. É um frio, chuvoso, empoçado e gelado dia. De noite, a vista do meu quarto é maravilhosa. É um quarto de quina com janelas em ambos os lados, e eu tenho uma vista panorâmica da cidade e do Rio Lagen diretamente debaixo de mim. De noite, as luzes na rua e nas casas piscam como árvores de Natal, tochas de flamingo parecem delinear a cidade em espirais, e isso tudo é glorioso. De dia a mágica se vai e eu estou na verdade entre construções em obras e muitas pontes cruzando o rio.

Um camareiro me acordou hoje ignorando o "Não Perturbe" e aproximando-se tanto da minha cama que poderia ter passado direto por ela, acordando-me com um "Desculpe-me, senhor!", antes de bater em retirada ruidosa para o hall e caído na segurança do corredor, deixando o meu "Não Perturbe" no chão.

Não vemos muito da cidade porque tudo está fechado por causa das ameaças de bomba.

A luta parece não ter fim. Nós comemos no sports bar do Hilton. Que parece ter sido projetado por um estagiário. É tão profundamente feio que você ri. Felizmente eles têm Sky Sports, que é um canal esportivo europeu.

Mas você não pode tê-lo no seu quarto porque eles querem você no bar. Eu não tomo um drinque há um bom tempo. Eu me divirto à noite me sentindo "normal" e forte sem ser afetado pelo álcool. Os shows em Manchester e Bristol foram realmente bons, embora os jornais e revistas tivessem previsto que as pessoas não iriam porque eu não toco as velhas canções.

Ah, mas às vezes eu toco. Mas vejo o set como uma jóia - uma jóia in progress, sem dúvida -, uma legítima jóia na qual as partes móveis têm sido lustradas e polidas tanto quanto nós podemos, e nós encaramos o show como uma peça.

Desculpem-me pessoas que querem ouvir canções de 30 anos atrás e escolheram não ir ao show, mas eu acredito na minha musa e vou viver ou morrer por ela (bem, morrer é um pouco forte), talvez abrir meu próprio bar de onde eu não possa ser demitido é uma coisa mais limpa a se dizer.

Uma outra coisa. O resenhista na Escócia - um parvo - veio de novo com aquela história de quão dark, raivoso, etc., eu sou, ignorando completamente os crescendos de várias emoções orquestradas no show, e atendo-se meramente à noção do que eu sou. O público teve uma maravilhosa noite.

Aproveitando-se do espaço entre as canções, um jovem mantinha-se implorando: "Fale conosco, Lou."

Eu devo dizer a você: eu falo com você por meio das canções. Eu digo a vocês mais do que muitas pessoas sabem sobre seus amigos. Eu tenho tido essa relação com você durante anos e nunca abusaria disso. Eu falo de mente a mente, coração a coração, espírito a espírito por meio da música.

(Trecho do diário que Lou Reed escreve no seu site oficial. Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", dia 8 de novembro de algum ano. Retirado daqui.)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Muita música, qualquer música
por Beck

Pediram que eu explicasse por que eu faço música. Poderia dizer que não tenho a mínima idéia e encerrar essa conversa, mas o pessoal do fã-clube insiste para que coloque isso no papel. Poderia ser uma resposta sentimental, freak, quase hippie. Faço música porque é algo natural e necessário para mim, como respirar. Não acredite nisso. Além de ser uma coisa idiota de se dizer, está muito longe da verdade.

Acho que poderia ser bem feliz projetando aviões e mísseis, mas iria ter muito mais trabalho. No fundo, música é fácil. Cada instrumento tem sua maneira de tocar. Você escuta um monte de discos a sua vida inteira e depois sai por aí reproduzindo trechos legais que já ouviu.

Se estou pregando o plágio? Sei lá. Só sei que é bobagem ficar se preocupando com isso quando alguém pode lançar uma música hoje em Seattle e escutá-la algumas horas depois em Hong Kong. Gosto de gente como Patti Smith, que parece que sofre o diabo na carne para escrever uma canção. Adoro essa mulher, adoro o rosto dela, fico olhando para uma foto dela por horas.

Gosto de gente como Prince, que é capaz de ficar trancado num estúdio fazendo um disco maravilhoso e depois resolve tatuar um sol na língua para chamar a atenção.

Gosto de gente como Bob Dylan, que faz música para sacudir a cabeça das pessoas. Odeio quem gosta de dizer que Bob Dylan canta mal, que o show dele é uma porcaria e tal... Ora, esse cara nem precisava cantar. Todo mundo devia pagar ingresso só para ver o cara que escreve aquelas canções maravilhosas.

Gosto de gente como as bandas de country dos botecos, gente que às vezes gasta metade do cachê barato no bar do lugar.

Essa gente toda gosta de música, porque música dá tesão para quem faz e para quem escuta. Estou de saco cheio de ouvir pessoas me perguntando por que faço meus álbuns independentes. Faço porque gosto. Tem gente que queria passar o dia todo na cama, dormindo ou fazendo sexo. Eu gosto de ficar no estúdio, descobrindo como podem soar as coisas que gravo.

Um garoto já mandou umas dez cartas para mim, querendo saber o que ele deve escutar. Que bobagem é essa? Por que eu devo ser guru musical de alguém?

Para quem só vai sossegar quando eu disser alguma coisa, aqui vai: música de negro. Entre um disco de um artista branco e outro de um negro, escolha sempre o segundo. Se o negro não tiver criatividade para compor, pelo menos vai ter aquele balanço incrível dentro dele.

Quanto aos artistas brancos, eu prefiro os que fazem muito barulho ou então os artistas country. São dois tipos de som que não precisam ser irretocáveis para soarem muito bem. Acho um absurdo que um garoto teen não escute Nine Inch Nails. Tem de aproveitar para ouvir nessa época, quando os hormônios estão trabalhando em alta velocidade. Depois que as pessoas crescem, ficam menos barulhentas. Veja o caso de Kim e Thurston (N.T.: Kim Gordon e Thurston Moore, casal veterano da banda noise Sonic Youth).

Sei que muita gente implica com minha adoração pelo country, mas eu não entendo essas pessoas. Mais do que querer saber o que elas têm a ver com meu gosto musical, fico curioso para saber o que elas enxergam de tão ruim na música country.

O que eu tinha a dizer era isso: escutem música, qualquer música. Toquem música, qualquer música. É sempre divertido.

Beck é cantor e compositor
Este texto foi feito para um dos fã-clubes de Beck, o Loser Legion (Washington, DC), traduzido por Thales de Menezes e publicado na Folhateen, da Folha de São Paulo, anos atrás.